A cada dia que passa temos novas doenças, novos transtornos, patologias com nomenclaturas tão complicadas quanto variadas e específicas. Se contarmos com as diferentes combinações dessas doenças aí então que o número vai beirar o infinito. Vivemos um momento onde a ciência avançou muito para entender e descrever com o máximo de detalhamento possível cada forma de manifestação das patologias, sendo elas físicas ou psicológicas, e mesmo sendo elas tão específicas, sabemos que não descrevem perfeitamente o que cada um de nós sente quando não estamos bem.

A preocupação da maioria dos profissionais da saúde é de realmente compreender a dor do paciente sem que necessariamente tenha de encaixá-lo em um determinado rótulo (pelo menos é o que se espera), mas isso se mostra as vezes muito difícil. Nem sempre se tem ou se dedica o tempo necessário para que se alcance um vínculo onde haja empatia suficiente por parte do terapeuta. Além disso estampar um rótulo na testa do paciente acaba por se tornar o caminho mais prático. Por outro lado, a generalização do problema pode ter bons efeitos se for feito de outra forma e por diferentes razões.

No antigo Egito existiam práticas medicinais* que tinham efeitos muito interessantes os quais podem nos fornecer bases para reflexões interessantes com resultados aplicáveis até nos dias de hoje. Jung, em seu livro de conferências – Fundamentos da Psicologia Analítica, cita um exemplo: quando alguém era picado por uma cobra os médicos acrescentavam ao tratamento da ferida a recitação de textos míticos. Nesse caso especificamente era recitado o mito do Deus Rá, onde ele é picado por uma serpente venenosa e que, apesar de todo o sofrimento, conseguia ser curado pela Deusa Ísis. Essa simples recitação era capaz, segundo esses médicos, de facilitar a cura do paciente, uma vez que ele abandonava a solidão de sua dor e podia fazer uso de um poder maior do que ele próprio. Ao se buscar mitos os médicos alcançavam uma camada do ser humano mais elementar e por isso compartilhada com toda a raça humana.

Como foi colocado anteriormente, essa generalização se dava buscando ativar um poder de cura que de alguma forma existe em todo o ser humano, diferente das rotulações com caráter prático que visa apenas facilitar o trabalho dos médicos e terapeutas.

Jung afirma que, assim como temos uma estrutura elementar do corpo de um homem (uma cabeça, dois olhos, uma boca, etc), existe essa estrutura elementar na psique do Ser humano também. Os Arquétipos, termo que integrou à sua obra a partir do pensamento platônico, seriam estruturas elementares (Arc – Arcaico, primitivo, elementar e Tipos – modelos, formas) presentes nas bases da psiquê humana e que de alguma forma une cada índivíduo a toda sua espécie. No entanto, para que essa generalização pudesse surtir efeitos precisaria se encontrar o mito certo capaz de fazer uma ponte adequada entre a experiência pessoal e a dimensão coletiva. A cultura, o funcionamento do sujeito, características pessoais, entre inúmeros outros fatores precisariam ser levados em conta para uma integração adequada.

Certamente poderíamos refletir muito sobre essa prática egípcia, mas o que me parece mais interessante é levar em consideração a possibilidade de que o sofrimento humano apesar de ter expressões infinitamente variadas, tem também uma dimensão comum a todos nós. Pode ser que exista um ponto de encontro em que todas as alegrias e tristezas podem ser compartilhadas e que a partir desse ponto pode-se fazer uso de uma grande fonte de “energia” curativa. Como um grande banco de experiências onde a solução de um pode ser a solução do outro de maneira que a humanidade possa progredir como uma unidade vital.

Antigas tradições filosóficas afirmavam que o mundo externo era o reflexo do mundo interno. Jung complementa dizendo que cada um com quem nos relacionamos guarda um mistério a cerca de nós mesmos. Talvez se olhássemos para o outro como uma parte de nós mesmos e que de alguma maneira pode estar passando por coisas pelas quais nós também já passamos, quem sabe até estão passando por problemas os quais ainda iremos passar, nos dedicaríamos mais em tentar integrar esse alguém a nossa vida, nos empenhássemos mais em saber exatamente pelo que ela está passando e procurássemos encontrar uma solução que não será só dela, mas nossa e de toda a humanidade.

Jesus Cristo disse: “Ame ao próximo como amas a si mesmo”, talvez isso que, muitas vezes pode soar como algo utópico e romântico, guarde chaves mágicas e práticas para o crescimento humano.

Pedro Paiva – Psicólogo do Instituto Médico Seraphis

*Medicinais – normalmente se encontra o termo “médicos” ou “medicinais” no sentido amplo, incluindo todos que se dedicavam a arte da cura e suas respectivas técnicas.